–Mas eu já estou indo, você não prefere ficar com ela acesa? –Não, apaga a luz. O escuro traz a ilusão de que não estou sozinha. Apaga antes de ir… Não quero ver você se afastando. –Mas você sabe que eu não volto, precisa continuar enxergando. –Não, prefiro ter seu rosto como minha última recordação. Se a luz estiver acesa, lembrarei do teto, das coisas ao redor, tudo muito sólido, muito concreto. Prefiro seu rosto e mais nada. Não quero lembrar do real, seu rosto soa mais sonho pra mim. Depois eu durmo e não lembro mais de nada. –Mas quando dorme, você não lembra? –Não. Quando durmo, eu morro. Dormir é bom… –Deus me livre!!! –Do quê? –De morrer… –Você acredita? –Em Deus? Não. –Na morte. –Nela sim. –Eu não. Morrer é que nem viver, só que ao contrário. Sonhar é o prelúdio. Por isso o sonho é bom. Não é nem lá, nem cá. Bom que esqueço de viver. –Você sabe, vou indo. –Eu sei. Não quero. –Mas vou. –Por isso, apaga a luz. –Não acho bom que você fique no escuro, precisa da luz pra sair daí. –Não me importo, não sairei mais. Não será preciso. –Você diz como se não houvesse mais nada. –Não há. –Mas por que você se prende assim? –Não há. Acho engraçado você acreditar na morte e não acreditar em Deus. –Sei lá dessas coisas, o que me importa é que você não fique no escuro. –A luz vai, não há outra forma. Eu fico. É melhor me acostumar desde o começo. Depois será constante, de qualquer forma. –Mas o sol vai nascer uma hora. –Meus olhos não enxergarão. Já estarão cegos, até lá. Você sabe, ficarei inerte em pouco tempo. –Tudo isso? –Escuta, um homem passa lá fora… –Tudo isso? –Olha, é você sorrindo… –Tudo isso? –Sente, é o vento que trouxe seu cheiro até mim… –Tudo isso? –Me tocou. –Já vou indo. –Está bem… Mas, antes de ir, apaga a luz.